4 de junho de 2010

SÍNTESE DE "TÉCNICA, ESPAÇO, TEMPO: GLOBALIZAÇÃO E MEIO TÉCNICO-CIENTÍFICO INFORMACIONAL", DE MILTON SANTOS

1. TECNOLOGIAS NO ESPAÇO DAS CIDADES
Técnicas agrícolas, industriais, comerciais, culturais, políticas, informacionais etc. constituem modelos de modernidade e de anacronismo inseridos em situações concretas que as presidem, isto é, todas as técnicas, de qualquer nível ou plano, são presididas por relações concretas: os modos de produção. A validade de tais técnicas é determinada pela inserção no tempo-espaço, o que equivale a dizer que elas só se valorizam em seu conjunto, no uso, na aplicação cotidiana. Representam, assim, marcos da própria história dos modos de produção, na medida em que simbolizam o que o autor chama de “certidão de nascimento”.

São as técnicas adquiridas por determinado meio de trabalho (uma empresa, por exemplo) que são responsáveis pelo desempenho geopolítico na estrutura social. Esse desempenho é essencialmente medido pela evolução e/ou estacionamento dos modos de produção, o que leva a inferir uma certa correlação entre técnica e sociedade no sentido da análise social, ou seja, as técnicas gerais apresentadas pelo corpo social, na concepção de produção, seriam um retrato figurativo do valor da sociedade.

Não basta, por outro lado, o domínio de técnicas de peso para que se alcance a ascensão social, no sentido valorativo da expressão. Milton Santos mostra que as mesmas técnicas podem resultar em efeitos diferenciados em virtude dos agrupamentos sociais que as usam. Noutras palavras, as técnicas gerais têm sua competência dependente das relações sociais. Estas, argumenta o autor, nos levam a conceber um processo político se sobrepondo ao processo técnico-empresarial.

Conceber variáveis geográficas aspirando-se a uma análise social implica compreender a correlação inequívoca entre variáveis diferenciadas, ou seja, uma variável não possui valor absoluto, mas sempre relativo, uma vez que sua análise deve compreender a atuação de outras variáveis em atuação no corpo social. Santos, aliás, explicita isso quando diz que:

(...) Se limitássemos a pôr lado a lado variáveis da mesma natureza, apenas chegaríamos a relações numéricas desprovidas de significação. São relações entre variáveis de natureza diferente que permitem aproximação da noção de estrutura (1996: 64).

Essa “noção de estrutura” de que fala o autor é uma condição imprescindível a qualquer análise epistemológica que se pretenda séria. Estrutura social, por exemplo, seria o conjunto de fatores que intervêm ativamente nas realizações sociais e orientam sua deriva. Variáveis diferenciadas, portanto, são fundamentais para uma análise geográfica razoável. O autor cita, inclusive, a distinção entre idade tecnológica (concebida a partir da idade das técnicas presentes) e idade organizacional (concebida a partir da organização dos fatores de trabalho relativos às técnicas em questão) como uma noção básica para que se chegue ao axioma segundo o qual caminhamos para um processo irrefreável da globalização dos modos e técnicas de produção. Para M. Santos, “é praticamente inexistente um lugar em que toda a produção local seja localmente consumida e vice-versa” (cf. p. 65).

Há que haver, finalmente, um entrelaçamento entre as variáveis geográficas a fim de que se possa conceber uma análise global da estrutura social. É interessante notar a similaridade estabelecida por Santos entre variáveis geográficas e linguísticas, citando o célebre estudioso romeno Eugenio Coseriu. Santos argumenta que haveria uma relação paralela entre diacronia e sincronia nos planos linguístico e geográfico: uma língua é gradativamente formada com o correr dos tempos, mas tem seu uso determinado pelo presente. Assim também ocorre com as técnicas de produção, que são forjadas sistematicamente no processo histórico mas têm sua validade em consonância com a sua utilização no espaço-tempo presente.

2. A FORMA E O TEMPO
Talvez uma das tarefas mais capciosas da análise geográfica seja o que Santos chama de “empiricizar o tempo”. Com efeito, o ser humano possui extrema dificuldade na questão temporal, pois na verdade nós vivemos numa espécie de dimensão intermediária entre o futuro, o presente e o passado. Tudo que vivenciamos vai se tornando automaticamente passado e vai se afastando de nós, perdendo-se de nós. À medida que o futuro vai sendo construído, torna-se presente, que por sua vez se transforma em passado, nossa única realidade temporal essencialmente distante de nossas mãos. Precisar o tempo, portanto, é empiricizar o abstrato.

É mais fácil, por outro lado, a análise do espaço, na medida em que se apresenta sempre à nossa volta, como soma das realizações do passado e do presente. Nesse sentido, entraria uma configuração temporal, pois o aspecto urbano seria o conjunto de manifestações espaço-temporais. O espaço vai sendo forjado temporalmente, fragmentadamente.

Dois fatores atuais que também dificultam a análise geográfica são a ausência quase que inteiriça de discussões históricas relativas à formação das cidades (história da cidade) e a confusão comum entre o urbano e a cidade. Na visão de Santos, “não mais ensinamos como as cidades se criam, apenas criticamos as cidades do presente” (p. 69), o que constitui um entrave à compreensão geográfica. No outro plano, também é maléfica a confusão entre o concreto, o todo espacial que é a cidade, e o abstrato, as teias que compõem o todo: o urbano. Um estudo sério que envolvesse os processos pelos quais passam as cidades em sua formação implicaria uma análise dos fatores abstratos que articulam o espaço, a saber, aspectos urbanos.

Defende-se, desta forma, a tese de que é preciso separar as abstrações espaço-temporais (o urbano) das realizações concretas que se apresentam diante de nós (a cidade). Ressalte-se, entretanto, que essa separação é apenas hermenêutica e epistemológica, pois a análise geográfica não pode prescindir da correlação entre as duas realidades. As formas espaciais configuradas ao longo do tempo têm papel ativo na formação do presente, que é visto como resultado das formações geográfico-espaciais estruturadas no tempo. Vale confrontar, a propósito, o que Santos chama de “revanche das formas”, isto é, o papel preponderante das formas histórico-espaciais na compreensão da modernidade.

3. MEIO AMBIENTE CONSTRUÍDO E FLEXIBILIDADE TROPICAL
Embora ciência e tecnologia se apresentem realmente como os meios únicos para a compreensão dos aspectos geográficos, é preciso notar que o homem moderno se encarregou de estabelecer as devidas separações entre o que é viável ou não em termos de aplicações de recursos.

Houve, com o passar do tempo, uma crescente pressão sobre a cidade, se compararmos a realidade urbana com a rural. O campo, teoricamente, gozaria de certos privilégios no processo de adaptação aos novos tempos, pois sofre menos com a atuação das grandes massas populacionais. O raciocínio capitalista monopolizante, que concebe o lucro como mola mestra de sua atuação, tem concorrido para que o quadro se torne mais alarmante. Tudo passa a se subordinar às vontades do imperialismo. É assim que, no argumento de Mumford (apud Santos), o destino final das grandes metrópoles europeias e norte-americanas seria nascer cidade, tornar-se lentamente metrópole e, em seguida, necrópole (cf. p. 74). Vale lembrar, inclusive, que este capítulo parece ser o ponto nevrálgico do texto que me coube analisar, pois aqui o autor argumenta claramente em favor da tese de que as grandes aglomerações urbanas, localizadas sempre à margem dos privilégios tecnológicos, científicos e culturais (estes centrados em pequenos eixos urbanos, como ocorre no estado do Rio de Janeiro, por exemplo), simbolizam uma reação à concentração de renda e à exclusão. Santos mostra com lucidez como o processo de desenvolvimento urbano pode ser impiedoso e levar o homem a uma situação incômoda: a roda viva do capital determinando comportamentos gerais e substituindo, inclusive, seu próprio entretenimento. Numa exemplificação grosseira, o favelado e sua barraca ocupam o espaço privilegiado, destinado aos detentores do poder; ou, na exposição de Santos, “a rua, onde o estacionamento expulsa o jardim, torna-se a arena desse conflito e não mais o lugar do encontro e da festa” (p. 75). Ou seja, o homem resiste à exclusão, à concentração, usando para tanto quaisquer meios de que disponha em dado momento.

A situação agravou-se, na visão do autor, após a Segunda Grande Guerra. Confiram-se suas palavras:

Alguns fatores se conjugam para criar esse resultado. Em primeiro lugar, o triunfo (...) de um modo de produção baseado na ciência, na tecnologia e na informação e, paralelamente, a substituição galopante do capitalismo concorrencial pelo capitalismo monopolista e a chegada concomitante do que se chamou de Modo de Produção Estatal combinado com Modo de Produção Urbano. Some-se a isso (como corolário e como causa) a instalação no Terceiro Mundo de governos autoritários frequentemente militares e, mais recentemente, a implantação do modelo neoliberal que associa países avançados e subdesenvolvidos (1996: 75).

A questão parece elementar: uma estrutura social não pode sobreviver ao centramento dos interesses. Não há ascensão social quando se privilegia a parcela detentora do poder tecnológico, até porque os que não detêm o poder reagem, às vezes de modo radical, pondo em xeque a estabilidade da hierarquia capitalista. Mesmo assim, não há como negar que essa é justamente a realidade que se coloca na modernidade, cujos paradoxos se expõem com bastante clareza nos chamados "países de Terceiro Mundo".

Os fatos, na atual conjuntura social, passam a apresentar-se sob a insígnia da intencionalidade. Nesse sentido, vale mais uma vez confrontar o que nos diz o autor:

À cidade como um todo, teatro da existência de todos os seus moradores, superpõe-se essa nova cidade moderna seletiva, cidade técnico-cintífica-informacional, cheia das intencionalidades do novo modo de produzir, criada, na superfície e no subsolo, nos objetos visíveis e nas infra-estruturas, ao sabor das exigências sempre renovadas da ciência e da tecnologia. Espaço minoritário dentro da aglomeração, espaço não dominante do ponto de vista da extensão, é, todavia, o espaço dominador dos processos econômicos e políticos, cuja lógica implacável se sobrepõe e comanda a dos demais subespaços, quantitativamente dominantes na paisagem, mas qualitativamente subordinados quanto às funções (1996: 76).

Fica evidente, assim, que Santos ataca a preponderância das técnicas científicas quando estas se apresentam a serviço contínuo de uma pequena parcela de detentores do poder e do capital. É mais ou menos o que Michel Serres expõe no seu Contrato Natural (Rio de Janeiro: Nova Fronteira), em que defende a existência de leis de convivência entre o homem e a natureza, sob pena de chegarmos ao caos. Também é esse o argumento de Leonardo Boff no seu O Despertar da Águia (Petrópolis-RJ: Vozes), livro no qual defende que o homem nunca foi senhor da natureza, mas sim companheiro dela no processo existencial, cabendo-lhe respeitar seus limites, suas idiossincrasias. Isto é, se Serres e Boff estabelecem um paralelo de correlação cooperativa entre o homem e o meio ambiente, Santos argumenta em favor da cooperação entre os que detêm as tecnologias de produção e os usuários dessas tecnologias, que, teoricamente, seríamos todos nós. É a tese de cooperação do homem com o próprio homem.

O meio ambiente construído, como um retrato da diversidade cultural e ideológica, como manifestação de diferenças de renda e de modelos simbólicos, seria justamente a resistência à concentração de poder referida até aqui. As classes hegemônicas quantitativamente se impõem em seu direito supremo de existir, invadem os grandes eixos urbanos, formando o que Michel Serres chama de 4º. Mundo (na tradição francesa), que seria justamente a invasão da miséria, a presença dos marginalizados na pequena redoma dos que possuem as técnicas de domínio. Num país como o Brasil, essa realidade é ainda mais gritante devido ao que Milton Santos chama de flexibilidade tropical, referindo-se à facilidade de acoplamento entre os vários segmentos sociais, o que atenua as diferenças (ao menos no plano da extensão espacial). Ou seja, passa a não haver tanta distância assim entre os que possuem as técnicas de produção, os recursos científicos, e os que permanecem à margem do sistema.

4. METRÓPOLE: A FORÇA DOS FRACOS
Neste tópico-fechamento, Santos compõe uma dissertação em certa medida emocionada e metafórica sobre a inserção das grandes massas migrantes nos pequenos eixos de dominação urbana. O autor procura mostrar, na dicotomia tempo vertiginoso vs. tempo lento, uma associação inevitável com a forma correta de enxergar a vida e os fatos, que seria mais potente nas classes marginalizadas.

Todo espaço, todo recurso, enfim, quaisquer técnicas de produção ou de análise terão que se considerar no tempo, realidade que se coloca como condição sine qua non para qualquer projeto de estudo social. Assim, faz-se necessária uma sistematização do tempo, e parece que esse é o escopo principal do capítulo 8. Santos procura mostrar que o tempo lento das massas é a sua principal arma na conquista diária dos espaços sociais, dominados pelos que possuem o tempo vertiginoso, rápido, o que dificulta uma visualização social com a devida coerência. A cidade é dos fracos. A eles ela é dedicada. Nas palavras de Santos, “ubiquidade, aldeia global, instantaneidade são, para o homem comum, apenas uma fábula. Para o homem comum, o Mundo, mundo concreto, imediato, é a Cidade, sobretudo a Metrópole” (p. 82).

É preciso lembrar, todavia, que a luta pelo direito ao espaço quase nunca é racional; pelo contrário, reveste-se de conflito, gerando o que por vezes simboliza uma guerra civil, como a que ocorre atualmente no eixo Rio-São Paulo. O confronto entre “áreas luminosas” (os pequenos centros privilegiados) e “áreas opacas” (as grandes periferias sociais) não é e nunca será inocente ou pacífico.

Santos, por outro lado, discorre em favor da diversidade das massas pobres, da capacidade de improvisação, da criatividade das áreas opacas, o que as torna as verdadeiras áreas luminosas. Já os pequenos centros abastados, dominadores, apresentam-se asfixiados pela imobilidade, escassez de ideais e de sonhos, o que os torna opacos em verdade:

Creio (...) que na cidade, na grande cidade atual, tudo se dá ao contrário. A força é dos “lentos” e não dos que detêm a velocidade (...). Quem, na cidade, tem mobilidade (...) acaba por ver pouco da Cidade e do Mundo. Sua comunhão com as imagens, frequentemente prefabricadas, é a sua perdição. Seu conforto, que não desejam perder, vem exatamente do convívio com essas imagens. Os homens “lentos”, por seu turno, para quem essas imagens são miragens, não podem, por muito tempo, estar em fase com esse imaginário perverso e acabam descobrindo as fabulações (1996: 84).

Urge, então, que os representantes das classes abastadas, os que detêm o poderio tecnológico, os pertencentes às “áreas lumionosas” percorram um caminho benévolo até a conscientização, pois a presente síntese não reconhece nas “classes opacas” o potencial devido para mudar a sua própria sorte. Se o atual quadro perdurar, dificilmente veremos realizada a proposta de Santos de “encarar o futuro” e a “necessidade de orientação”, ou sua exortação para que busquemos “entender os mecanismos dessa nova solidariedade”, que com efeito se impõe, já que os novos tempos não deixam margem para o desprezo elitista em relação aos povos para os quais as grandes metrópoles existem.

5. REFERÊNCIAS
BOFF, L. O despertar da águia - o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade. 14.ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1998.
SANTOS, M. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico informacional. São Paulo: Hucitec, 1996.
SERRES, M. O Contrato Natural. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1991.

OBS: Resenha escrita em 10 de junho de 2006.

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